Por volta de 1929, o senhor José Salomão  Lemos da Silva disponibilizou aroeiras  e protagonizou uma parceria para a construção de uma ponte que ficaria do lado de baixo de uma cachoeira existente no Rio São Francisco, a 3 km da sede de sua propriedade.

     Sua intenção era melhorar as condições de acesso para os moradores da região das Sete Lagoas e de viajantes que se dirigiam para Quirinópolis. Com a ponte cessaria a utilização dos perigosos vaus do referido rio.  Os fazendeiros da região doaram gado e desta parceria resultou a construção da ponte.

             O conjunto surgido da união cachoeira e ponte tornou-se uma atração, pela sua surpreendente beleza. A queda das águas do rio produzia uma intensa nuvem de gotículas, sob forma de fumaça, que se dirigia para cima da ponte, ao soprar  de agradável corrente de ar que surgia  no ambiente da cachoeira.

       Crianças de toda a região, diante da notícia de uma viagem para Quirinópolis, faziam festa e pediam para os pais  que quando chegassem na ponte deixassem os vidros dos carros abertos, para serem pulverizadas pelos refrescantes chuviscos. Algumas subiam nas carrocerias das camionetes, outras preferiam passar à pé, a correr sobre o leito molhado da ponte, para se deliciarem com a “chuvinha” e com o som emitido pela cachoeira.

          Era encantadores e  mágicos os efeitos naturais ali produzidos e, de fato, propiciavam momentos felizes e inesquecíveis  para a garotada e suas famílias.

          Abaixo, o rio seguia o seu curso, a desviar-se de grandes pedras, em seu leito coberto por exuberante mata ciliar. Tudo isso a compor um bucólico panorama, um visual que não sai da memória de quem teve a oportunidade de viver a emoção de passar por aquele lugar.

            Com a construção de nova ponte,  à  montante da cachoeira, o tráfego  de veículos migrou para nova direção. Os proprietários das terras, criadores de gado, fecharam o corredor para rodovia e isolaram a ponte, que já estava necessitando de reforma. Com o passar do tempo a ponte caiu.

        Para o povo, que não pode mais passar por ali, quebraram a ponte de tanta tradição e encantamento. Sobraram apenas as ruínas da velha construção.  A estrada que dava acesso ao lugar, foi bloqueada.  Fecharam as portas do show. Esqueceram da importância  daquele espetáculo natural, que atraia olhares e  era objeto de contemplação.

              A área doada ao poder público pelo casal pioneiro José Salomão Lemos da Silva  e Francisca Jacinto, hoje pertence a ENEL. Nos finais de semanas e feriados, uma multidão  procura aquele lugar para se divertir.

        Quem sabe um dia o poder público municipal  possa resgatar a posse do lugar, reconstruir a ponte da chuvinha, viabilizar uma estrutura nova, permanente  e ecologicamente correta.

       Ponte Quebrada, como hoje é conhecida,  é uma designação que não faz jus a um lugar que tem tanta  história – a ponte foi o primeiro bem público de porte construído em parceria  pelos fazendeiros da região –  em 1928. O lugar foi sede da primeira hidrelétrica da cidade de Quirinópolis e o conjunto ponte-cachoeira foi, enquanto existiu,  uma atração memorável.

      Tudo  vale  a pena:  sonhar,  valorizar a cachoeira, construir uma ponte, resgatar a chuvinha,  a paisagem bucólica, a beleza das correntezas e  a magia do lindo lugar, inclusive como ponto de fortalecimento do turismo  ecológico em Quirinópolis.  Quem sabe agora não é hora de se articular  uma nova parceria. Lembra-se de como foi a construção  da ponte? Ali há potencial para muito mais.

Ângelo Rosa Ribeiro nasceu em Quirinópolis, foi professor da EV- UFG, deputado estadual (2x), secretário de agricultura de Goiás (2x), secretário de planejamento de Goiás,  assessor técnico da SEGPLAN GO, superintendente da SEMARH GO, chefe de gabinete da PGE-GO,  atual residente e produtor rural em Quirinópolis-GO.